segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

«Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus»

Sempre que o «Sermão das Bem-aventuranças» é leitura central na celebração da Eucaristia, uma (e tem sido a mesma - Mat 5, 6 - , se bem que interpelando-me de modos diferentes) assume uma força muito especial ficando comigo longo tempo.  Ontem,  logo ao escutar, mais uma vez, as palavras inesgotáveis na sua poeticidade e  infinita beleza, na versão que nos chega de S. Mateus (Mat 5, 3-12), senti que essa "força" singularizava agora a do versículo 8  - «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus». Significativamente, na homilia, o padre também a singularizou no facto de ter sido a única, de entre as nove, que passou em branco.  Devo dizer que senti uma espécie de "descompressão" por ele a não ter "explicado", como fez sucessivamente a cada uma das outras. (contrapondo-as ao que "o mundo" prega). A espécie de estremecimento que me pareceu ter acompanhado o breve silêncio que fez depois de a ler e passar à seguinte foi a mais eloquente "glosa" que lhe poderia ter sido suscitada.

Como poderia eu ousar dizer, então, alguma coisa? Fico pela reafirmação do que tenho vindo a tentar pensar (recorrendo à escrita no esforço de apreender o inapreensível) sobre o símbolo, a que o mítico acresce da intensa ressonância do arquétipo. Nesta linha de reflexão é talvez o mais poderoso de todos os símbolos aquele que, infinitamente, a literalidade desta bem-aventurança contempla (como a gota de água em que os místicos vêem contido todo o mar).


sábado, 29 de janeiro de 2011

«cinza / na fria luz de janeiro»

Hoje, conseguindo finalmente algum tempo para mim, tomo consciência de que o fascínio  de que falo na mensagem de ontem está também (e ao mesmo tempo) na concretização, na voz que canta e a que desejo unir a minha, silenciosa, deste anseio que não me abandona de dizer o que assim escuto dito, na certeza de que nada nem ninguém me poderá separar do amor d' Aquele a quem as digo, no mais fundo de mim, mesmo quando a ligação não acontece, como há já tanto tempo parece ser o caso.

Quem, senão Ele, traz até mim este poema? Quem, senão Ele, me pode falar desse «caderno azul» (e  de quanto nele guardei) que «soçobrou ao cair da tarde»?  Quem senão Ele me pode dar a ver, em tão poderosas imagens, o que se me afigura marcar, no plano da viagem, o fim de um ciclo e o início de outro?  Escuto-O neste «outro» que assim se desdobra num eu que fala e num eu que escuta, eu este que me sinto movida a plenamente protagonizar:
«um raio vindo da planície / tomou-o por dentro / e as palavras com que falavas a deus / essas linhas de amor esquecido / são agora cinza / na fria luz de janeiro».

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

«Die Sehnsucht du / und was sie stillt»

Tenho ligado o fascínio que têm em mim certos cânticos (ou canções como a Lied de Schubert que coloquei no meu último post,  «Du bist die Ruh») ao poder de propiciarem a emergência daquele terceiro interveniente na relação (que ele mesmo cria) em que música e palavras, por sua via, se indissociam na criação de algo de belo e de feliz. «Ter oração», como já o tenho muitas vezes dito aqui, é a expressão quase ingénua de Teresa d' Ávila para o que  diria ser a «ligação», em diferentes graus e em diferentes níveis de consciência (digamos assim), a um «Tu», que, explicitado ou não na forma pronominal da segunda pessoa, assume presença, inclusivamente no mais profundo âmago do que possa ser tomado como Seu afastamento ou ausência. 

Não se confinando ao plano do «ser», não pode por isso mesmo definir-se. Vê-Lo nesse "terceiro" que cria a ligação de que irrompe e que sustenta na eternidade do instante («the moment in the rosegarden»), referi-Lo como «Cristo» (como S. Paulo o faz, nomeadamente ao dizer que «nada nos pode separar do Seu amor»), ou, no plano mais concreto e ingénuo do símbolo, invocá-Lo como o Amigo, o Bem-Amado, ou simplesmente «Tu» («Die Sehnsucht du / und was sie stillt») apenas indiciam diferentes modos de olhar - e porventura viver - a ligação implicada em «ter oração».

Du bist die Ruh





Du bist die Ruh,
Der Friede mild,
Die Sehnsucht du
Und was sie stillt.


Ich weihe dir
Voll Lust und Schmerz
Zur Wohnung hier
Mein Aug und Herz.


Kehr ein bei mir,
Und schließe du
Still hinter dir
Die Pforten zu.


Treib andern Schmerz
Aus dieser Brust!
Voll sei dies Herz
Von deiner Lust.


Dies Augenzelt
Von deinem Glanz
Allein erhellt,
O füll es ganz!


You are peace,
The mild peace,
You are longing
And what stills it.

I consecrate to you
Full of pleasure and pain
As a dwelling here
My eyes and heart.

Come live with  me,
And close
quietly behind you
the gates.

Drive other pain
Out of this breast
May my heart be full
With your pleasure.

The tabernacle of my eyes
by your radiance
alone is illumined,
O fill it completely!

sábado, 22 de janeiro de 2011

«leave the baser world behind»

Vejo como o tempo passa cada vez mais acelerado contrariando o que em mim reclama paragem, silêncio, quietude:  a tranquilidade favorável a esta escrita de reflexão contemplativa que me chama aqui, muito em especial quando me a suscita esta ordem de poesia que intensifica em mim o sentido de uma outra dimensão de que me é assim propiciado um vislumbre. Uma dimensão mais "leve", mas não menos real da existência, que permeia e envolve esta mais densa. Na verdade, não se trata verdadeiramente de diferentes dimensões da realidade, mas sim de diferentes níveis de consciência dela. Um poema tanto mais me "toca" quanto me eleva acima deste nível mais denso, por isso tido por básico, para me o dar a ver, numa outra "claridade", transfigurado.

O sentido de frustração que possa advir de se me deparar tão buliçoso e afadigante este troço do caminho (que esperaria de «remanso») longe de contrariar a aceleração do tempo, mais lha aumenta. A consciência disto leva-me  à visualização do rio e do que o seu caudal arrasta, que simplesmente há que deixar ir na corrente. Não perde força com a reiteração o que se tornou para mim um poderoso símbolo  a que recorro na certeza de que é rendendo-me que avanço ao encontro do que anseio sem saber o que seja, confiante em que virá.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

de novo o símbolo

É consabido que os grandes místicos, como Teresa d' Ávila e João da Cruz (e tantos outros, anteriores e posteriores), recorrem ao discurso amoroso na verbalização de um sentir que de tal maneira neles enche a capacidade de o conter que extravasa e flui feito palavra. Não digo que não responda também,  e ao mesmo tempo, a uma necessidade, que se lhes torna imperiosa, de abertura ao "outro" no propiciar-lhe, contagiando-o (no sentido etimológico do termo), uma via à mais intensa quanto pura forma de enamoramento: aquela que, ao nível do símbolo, é protagonizada ao nível da história pelas personagens intervenientes. 

O que distingue o símbolo da metáfora, como já muitas vezes o tenho sublinhado, é o fazer sempre sentido literalmente. E fá-lo, regra geral, propiciando imagens que diria muito próximas das que acontecem quando os olhos as projectam (scrying), imagens da natureza das  de que o mito ou a "história de encantar" se servem na sua literalidade narrativa.  Assim, no Cântico Espiritual, a figura feminina que desce ao jardim em estando a sua casa sossegada. Assim a pastora em Heilige Seelenlust com os seus cânticos enamorados. Assim se me afigura também, tão próxima, aquela que, indissociável da paisagem que a envolve, «ali ficava / a ver o mar».  

Poderá realmente a alegoria destruir o símbolo? Diria que o símbolo é indestrutível. A alegorização, por exemplo, da parábola da semente que cai no caminho, entre pedras, ou no terreno arado não destrói a sua força simbólica, apenas propõe uma leitura que faz sentido no contexto a que é trazida. Assim também o próprio «Símbolo dos Apóstolos»: o assumir a palavra «creio» e o conferir-lhe como âmbito, na forma de uma narrativa ao alcance dos mais simples, o mistério dos mistérios como seja a triunidade do divino. A ligação entre o histórico e o mítico, em si mesma material inesgotável que se oferece à reflexão, será talvez responsável pela resistência que tenho observado, especificamente no que se refere a esta narrativa, contada e recontada ao longo dos séculos, a reconhecer-lhe a natureza de símbolo  e a inerente abertura  ao «por significar». Se assim não fosse, quem seria eu para, no já tantas vezes dito, almejar, não dizer algo de novo, mas reiterando-o responder ao apelo do que «apela a vir». Ou não fosse na literalidade nua do símbolo que aos «pequeninos» é revelado o que  se esconde aos «sábios» sob esse mesmo véu.

Os mais belos poemas são para mim os que, sendo-o já na sua mais pura literalidade, indissociada das palavras que a dizem, abrem no real passagem a um ainda mais real onde  irrompe, feito sentido, o «por significar» do símbolo que substanciam. É assim que estes poemas  tocam em mim cordas profundas, nomeadamente  este que surge agora com o título «Ver».

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

o ainda nunca dito no já tantas vezes dito

Paul Gerhardt (1607-1676) é contemporâneo de Angelus Silesius e de Thomas Traherne.
Sempre o ainda nunca dito pode irromper no já tantas vezes dito.  Porventura o propiciará  algum ponto ou momento desta glosa  de Gerhardt ao versículo 5 do salmo 37, glosa concebida ao mesmo tempo como um acróstico  a fazer surgir este mesmo versículo na versão alemã: «Befiehl dem Herrn deine Wege und hoffe auf ihn, er wird’s wohl machen.»


Befiehl du deine Wege
Paul Gerhardt, 1656

  1. Befiehl du deine Wege, / und was dein Herze kränkt / der allertreusten Pflege des, / der den Himmel lenkt, / Der Wolken, Luft und Winden / gibt Wege, Lauf und Bahn, / der wird auch Wege finden, / da dein Fuß gehen kann.
  2. Dem Herren musst du trauen, / wenn dir’s soll wohlergehn; / auf sein Werk musst du schauen, / wenn dein Werk soll bestehn. / Mit Sorgen und mit Grämen / und mit selbsteigner Pein / lässt Gott sich gar nichts nehmen, / es muss erbeten sein.
  3. Dein ewge Treu und Gnade, / o Vater, weiß und sieht, / was gut sei oder schade / dem sterblichen Geblüt; / und was du dann erlesen, / das treibst du, starker Held, / und bringst zum Stand und Wesen, / was deinem Rat gefällt.
  4. Weg hast du allerwegen, / an Mitteln fehlt dir’s nicht; / dein Tun ist lauter Segen, / dein Gang ist lauter Licht; / dein Werk kann niemand hindern, / dein Arbeit darf nicht ruhn, / wenn du, was deinen Kindern / ersprießlich ist, willst tun.
  5. Und ob gleich alle Teufel / hier wollten widerstehn, / so wird doch ohne Zweifel / Gott nicht zurücke gehn; / was er sich vorgenommen / und was er haben will, / das muss doch endlich kommen / zu seinem Zweck und Ziel.
  6. Hoff, o du arme Seele, / hoff und sei unverzagt! / Gott wird dich aus der Höhle, / da dich der Kummer plagt, / mit großen Gnaden rücken; / erwarte nur die Zeit, / so wirst du schon erblicken / die Sonn der schönsten Freud.
  7. Auf, auf, gib deinem Schmerze / und Sorgen gute Nacht, / lass fahren, was das Herze / betrübt und traurig macht; / bist du doch nicht Regente, / der alles führen soll, / Gott sitzt im Regimente / und führet alles wohl.
  8. Ihn, ihn lass tun und walten, / er ist ein weiser Fürst / und wird sich so verhalten, / dass du dich wundern wirst, / wenn er, wie ihm gebühret, / mit wunderbarem Rat / das Werk hinausgeführet, / das dich bekümmert hat.
  9. Er wird zwar eine Weile / mit seinem Trost verziehn / und tun an seinem Teile, / als hätt in seinem Sinn / er deiner sich begeben / und sollt’st du für und für / in Angst und Nöten schweben, / als frag er nichts nach dir.
  10. Wird’s aber sich befinden, / dass du ihm treu verbleibst, / so wird er dich entbinden, / da du’s am mindsten glaubst; / er wird dein Herze lösen / von der so schweren Last, / die du zu keinem Bösen / bisher getragen hast.
  11. Wohl dir, du Kind der Treue, / du hast und trägst davon / mit Ruhm und Dankgeschreie / den Sieg und Ehrenkron; / Gott gibt dir selbst die Palmen / in deine rechte Hand, / und du singst Freudenpsalmen / dem, der dein Leid gewandt.
  12. Mach End, o Herr, mach Ende / mit aller unsrer Not; / stärk unsre Füß und Hände / und lass bis in den Tod / uns allzeit deiner Pflege / und Treu empfohlen sein, / so gehen unsre Wege / gewiss zum Himmel ein.

Paul Gerhardt - Befiehl du deine Wege

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

o perigo da palavra Deus

Se, de há muito, deixei de usar especificamente a palavra Deus, pergunto-me se, neste retraimento a dela fazer uso, não terá pesado, sem que o discernisse, o que agora me é trazido à consciência, nomeadamente, que seja «a maior das heresias fazer de Deus um vocábulo».

A consciência, se alguma tinha como o creio, era a de que encobriria, ou melhor, des-cobriria sempre, a quem da minha boca a escutasse, a figura de Jehovah, «o Pai terrível que mantinha "os publicanos e pecadores" convictos da sua nenhuma valia e os "escribas e Fariseus" acobardados por detrás de uma fachada de aterrada santidade» (estou a citar, na minha tradução, um passo de Son of Man: the mystical path to Christ).
Quem, pelo contrário, reconheceria nesta palavra o "Tu" da «mais profunda experiência mística, um Pai que é também uma Mãe, de quem o maior anseio não é  julgar, mas  festejar a  harmonia entre seres nascidos do amor» (ibidem)?
A esta «visão do Pai que é também Mãe» se molda «a própria natureza espiritual de Jesus (...), que O faz um exemplo supremo do divino equilíbrio humano entre o "masculino" e o "feminino", (...) a antítese (...) do regime patriarcal em todas as suas palavras, gestos e movimentos de amor».

a relação que faz da poesia oração

Na relação que faz da poesia oração, o Vocativo, independentemente da palavra escolhida, outra função não tem que não seja a que a gramática lhe atribui, nomeadamente a de dar suporte ao chamar, ao invocar. Jesus propôs-nos a palavra com que a criança chama um pai que é ao mesmo tempo mãe, na intimidade que O faz mais íntimo do que o eu a si mesmo. Parece-me significativo que tenha sido mantido o termo  em aramaico, fora de qualquer tradução: Abba.

Na «oração de centração»  decalcada por Keating sobre o modelo proposto pelo autor anónimo da Nuvem do não-saber, é da livre escolha do orante a «palavra sagrada» a investir com o poder de passar além da nuvem. A minha escolha foi suscitada pela «oração de Jesus», que consiste em apenas dizer repetidamente o Seu nome: como um sopro nas suas sibilantes e ajustada, como Abba, ao compasso de uma respiração.

de novo a poesia

A poesia, como a oração, é essencialmente "relação" e, como tal, do domínio do acontecer. Relação do eu consigo mesmo ou com o outro / Outro, relação que, como tantas vezes o sublinhei (numa combinação da visão de R.M. com a minha própria vivência), compreende (sob pena de não se tratar nem de uma coisa nem de outra) um «terceiro» interveniente que é em si mesmo o  próprio mistério intrínseco ao momento em que cria a relação de que nasce.

É assim que a poesia e a palavra se implicam mutuamente, podendo dizer-se que, neste seu modo de relação com a palavra, a poesia é também o silêncio antes e depois dela, um silêncio que é, em diversos graus, «música calada», culminando naquele de que S. João da Cruz dá conta no contexto a que o traz no Cântico Espiritual.

A poesia, como a oração, envolve, pois, sempre uma passagem para um outro nível ou intensidade de «vibração» (ou de «existência»). Se a «orientação do coração»  é crucial no modo do seu acontecer, também a diferente experiência de vida de cada um (em que incluo, sem separações, a experiência de leitura / escrita) tem aí o seu peso e o seu papel.